Drama de soropositivo ilustra novo desafio no combate à Aids
Atualizado em 25 de julho,
2012 - 10:42 (Brasília) 13:42 GMT
Eram 10h do dia 5 de setembro de 2007 quando José Luís da Silva
descobriu que era soropositivo. No ano seguinte, soube que havia desenvolvido
uma leucemia. Hoje, a vida está "a pior possível".
"Hoje sou um sem-teto", afirma Silva, de 47 anos, desempregado. Há quatro
meses, ele passa as noites na Rodoviária Novo Rio, dormindo em um banco no
segundo andar, usando a mochila como travesseiro. Quando consegue dinheiro de
amigos solidários, dorme em uma pensão.
Silva toma os medicamentos antirretrovirais todos os dias, religiosamente,
mesmo que não tenha o que comer. O coquetel vem ajudando a controlar o HIV, mas
o tratamento médico não mata a sua fome. Sua única renda fixa são R$ 70 que
recebe do Bolsa Família.
Silva é um exemplo de como o programa brasileiro para pessoas com HIV no
Brasil, que inovou no passado ao determinar a oferta universal da terapia
antirretroviral, hoje precisa de mais que remédio.
Ele não tem família e depende da solidariedade de amigos e da ajuda de
ativistas de ONGs onde milita. A incerteza sobre o teto se arrasta desde que
soube da doença. Morava com a namorada, mas ela pediu que saísse de casa um dia
após saber do diagnóstico.
Assistência social
Coordenadora de um programa educativo no Grupo Pela Vidda, Mara Moreira
afirma que há um aumento de pessoas que chegam à ONG com demandas de cunho
social.
Há muitos casos de pessoas que recebem alta do programa de Previdência
Social, deixam de receber o benefício, mas não conseguem emprego, diz.
"A epidemia mudou de perfil e hoje está atingindo pessoas mais pobres. Temos
recebido várias demandas na área de assistência social, com pessoas que precisam
de recursos financeiros e de condições de sobrevivência mínima, mas não temos a
quem recorrer", diz Mara, que tentou buscar apoio na Secretaria Municipal de
Assistência Social, mas foi encaminhada de volta à Secretaria de Saúde.
Ela ressalta que a terapia antirretroviral exige que as pessoas se alimentem
bem, e alguns medicamentos precisam ser mantidos na geladeira. "E aí as pessoas
estão dormindo na rua. Como fazer?"
Para o psicólogo Veriano Terto Júnior, coordenador-geral da Associação
Brasileira Interdisciplinar de Aids (Abia), faltam medidas para além do
fornecimento de antirretrovirais.
"O Brasil tem acesso universal (ao tratamento). Esse é o nosso grande
resultado", diz. "Mas infelizmente começamos a ver um novo crescimento da taxa
de mortalidade em alguns lugares, o que está menos relacionado à Aids em si do
que a deficiências na assistência."
Mortes
No ano passado, 11 mil pessoas morreram por causa da Aids no Brasil. No Rio,
o ritmo de óbitos vem aumentando desde 2007, diz Terto. "Isso é inaceitável para
um país que tem acesso universal ao medicamento."
Apesar de ser bem articulado, Silva tem pouca esperança de conseguir um
emprego. A última vez que tentou foi em uma empresa de ônibus do Rio que
anunciara vagas para pessoas com necessidades especiais.
"O médico perguntou qual era a minha deficiência. Quando respondi, ele rasgou
a minha ficha e disse que não contratavam soropositivos", lembra.
Ele diz querer um emprego, mas duvida que encontre um empregador que preencha
seus requisitos. "Os patrões têm que entender que a cada três meses vou ter que
me ausentar para ir ao médico, e que de vez em quando vou chegar atrasado."
Ele defende que pessoas em sua situação sejam beneficiadas por uma política
de segurança nutricional, de moradia e de assistência pecuniária. "Eu não vou
viver só de antirretroviral. Tenho que me alimentar."
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