por Agência Lusa, Publicado em 28 de Abril de 2010
Os teólogos Carreira das Neves e Anselmo Borges defenderam hoje a realização de um concílio ou assembleia magna da Igreja para discutir algumas das polémicas atuais da instituição, desde a ordenação de mulheres ao celibato dos padres.Comentando a recente carta do teólogo suíço Hans Kung aos bispos de todo o mundo, onde era feito um apelo à realização de um concílio, os dois sacerdotes portugueses consideram que esta é uma matéria que deve ser ponderada pela hierarquia.
“Não um novo concílio, mas uma assembleia sobretudo para as questões dos ministérios. O Vaticano II teve medo de abrir o dossiê dos ministérios, do sacerdócio aos homens casados e às mulheres”, disse à Lusa o padre Carreira das Neves.
O teólogo sublinhou que “São Paulo diz nas suas cartas que os ministérios não são só para homens” pelo que é necessário repensar a Igreja “à luz dos Evangelhos e das cartas” do apóstolo.
“Uma reunião magna importante, concilio ou não, na minha perspetiva é urgente e necessário”, defendeu, considerando que “não há duvida que a Igreja, e a Igreja deste Papa, tenha talvez uma certa inflexão em relação ao Concilio Vaticano II”.
“Estamos um pouco a andar para trás em vez de andar para a frente e não assumimos os desafios da liberdade e da democracia”, sustentou.
Também o padre Anselmo Borges criticou a “monarquia absoluta” da Igreja, concentrada na figura do Papa: “Em primeiro lugar porque julgo que Jesus não queria isso e porque no nosso tempo temos uma mentalidade aberta e democrática. Nesse quadro democrático, precisamos também da participação das mulheres”.
Para Anselmo Borges, “a Igreja precisava de um concílio para diversificar, para mostrar que o essencial da fé cristã pode e deve ser vivido de múltiplas formas conforme os contextos culturais”.
“Um dos problemas da Igreja é a uniformidade e essa uniformidade não é mais possível”, disse, sublinhando a necessidade de a multiplicidade de contextos culturais ser refletida “ao nível da liturgia, da teologia, ao nível do diálogo interreligioso e da própria organização”.
Uma outra organização, menos centralizadora, teria contribuído para evitar os crimes de pedofilia praticados por membros do clero, defendeu.
A centralização, que “já vem dos tempos de João Paulo II”, foi, aliás, “repugnada pelo Concílio Vaticano II”, afirmou, sublinhando que há também “receio do Concílio do Vaticano II” num fechamento “em relação ao ecumenismo, ao diálogo com outras igrejas cristãs, e diálogo com outras religiões”.
Esta alegada falta de diálogo foi uma das críticas por Hans Kung na carta aos bispos, mas o padre Carreira das Neves não subscreve a tese do teólogo suíço, considerando que os sinais dados pelo Papa ao judeus “têm sido positivos”.
Carreira das Neves critica ainda que Hans Kung não tenha feito uma distinção entre igrejas protestantes e evangélicas, sublinhando que são as últimas que “não querem qualquer ecumenismo com a Igreja Católica”.
O teólogo pensa também que o problema do celibato dos padres foi tratado de forma “muito superficial” por Hans Kung, recordando que “há uma norma, mas é o padre que também o assume, após uma reflexão”.
Também para Carreira das Neves, “procurar soluções regionais” - uma das “sugestões” feitas pelo teólogo suiço na carta - “seria dividir a Igreja em muitas Igrejas católicas, à maneira dos ortodoxos”.
Na carta dirigida aos bispos, Hans Kung considera que a Igreja “se debate com a crise de confiança mais profunda desde a Reforma”, considerando que é “com justiça” que muitos exigem do Papa um “mea culpa pessoal” pelo “encobrimento” dos crimes de pedofilia praticados por membros da Igreja.
“Não se pode calar o facto de que o sistema de encobrimento global de delitos sexuais de clérigos foi dirigido pela Congregação para a Doutrina da Fé do cardeal Ratzinger”, lê-se na carta.
Hans Kung enumera também uma série de “oportunidades perdidas”, como a aproximação com as igrejas evangélicas e o diálogo com os judeus e muçulmanos, bem como de “ajudar os povos africanos” através da “aprovação de medidas de contraceção e na luta contra a SIDA através da autorização do uso do preservativo”.
O teólogo faz ainda “sugestões”, nomeadamente a da realização de um concílio “ou pelo menos, de uma assembleia representativa do episcopado”.
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